8 de Junho de 2009

Queria ser Zorbba

Cheguei ainda pouco de viagem com uma certeza trazida quase mil quilômetros distante. Queria ser o Zorbba, não fosse eu. Porque desde criança ouvi dizer e soube que ele era, e o é, bastante inteligênte. Pra mim um gênio. Mas ele não desmorona como eu. Ele segue em frente. Eu paro e descaminho. Eu mergulho no absurdo e tento morrer afogado.

Queria ser forte como o Zorbba e levar a Trimera nas costas. Eu não carrego sequer minhas ínfimas responsabilidades, estou desmoronando. Queria ser o Zorbba, bonito e eficiente. Queria as loucuras dele, não as minhas. Mas não é crise de identidade, não, não é. É admiração. Discordo que a admiração é fruto da ignorância. Eu o conheço faz milanos.

Ele é feito da mesma matéria que eu, acredito. Mas enquanto ele tenta se preservar eu tento o contrário. Eu surto, eu desacerto, eu despenco. Queria ser o Zorbba, ser compreensivo com meus erros e me perdoar tantas vezes quanto ele me perdoa. Eu não me perdôo. Nunca me perdôo. Eu fico buscando amor. Mas é que eu não me amo, e tento reflexo no rio, morro Narciso, morro.

Queria ser o Zorbba, com os defeitos e qualidades. Ele é muito magro e eu queria ser assim. Não, esse papo não tem "C... pelo meio". A gente perde tempo escondendo do mundo os amores que temos e que sentimos. Eu queria ser o Zorbba e ter a paz que eu queria ter e ter a paz que eu queria que ele tivesse. Nós nunca estamos em paz. O velho poeta dizia: "guerra dentro da gente".

Queria ser o Zorbba pra no meio de todo esse blá-blá-blá saber que embora eu não tenha dito nada, ele me entendeu e sabe como eu estou me sentido mesmo se eu ter conversado mais que essas linhas. Queria ser o Zorbba. Melhor, eu queria ser Laís. Mas, deixa pra outra vida, eu não nasci mulher.

Queria ser o Zorbba.

Chega de Iury.

22 de Abril de 2009

Café Avenida Rio

Quando Martina Ria nasceu o pai confessou ao padre que se enamorou por uma atriz de cinema que conhecera numa festa de carnaval e foi desta bendita artista que teve nos braços uma menina de quinze dias de desmamada , via correio, trazida do oceano distante e Pacífico, onde a moça das lentes e câmeras resolveu parí-la.

Discreto, no Piauí nada se soube, e moço velho sem ter mãe postiça para arrumar à pequena e desconhecida filha foi criá-la no pior lugar onde se pudesse. É que trabalhava nas finanças do Estado e residia na Paisandu, alto meretrício.

Tentava ninar Martina Ria ao som do piano desafinado do Cabaré da Estrela, tentava amamentar de paixão aquela boneca de sangue e cabelos escuros que tinha nas veias ritmo e valsado. Conseguiu o milagre de criá-la. E foi seu verdadeiro amor.

Martina Ria era o próprio pai. No jeito de fumar e no gosto pela música. No desapreço ao dinheiro e ao casamento. Moça velha, se apaixonou por um artista de cinema, mas engravidou do violonista bêbado que morava em frente ao Teatro 4 de setembro. Este último, neto do Alemão que construiu a Ponte Metálica, nos anos 30.

O filho de Martina Ria, ninguém sabe o paradeiro, mas li num livro que hoje fora romancista dos melhores, e que tivera um café na Avenida Rio, ambientado no cenário de um filme antigo cuja protagonista era a mulher que sequer desconfia ser sua avó.

3 de Março de 2009

Vassili

Temo ter me transformado bastante nos últimos meses.
Eu nem escrevo mais esse blog. E não escrevo mais nada.
Distraído com pistolas, carabinas e fuzis, distraído com gritos de alerta e resolvendo conflitos éticos eu me envolvo no sol de março.

Temo ter perdido um García Marquez na estante do tempo.
E nada mais há de Saramago em mim.

Não há espaço para À leste do Éden, do Steinbeck.

Não vejo meus amigos.

Não frequento mais meus bares.

Só a Trimera ainda me puxa à fantasia.

Saí do Jornal e dos outros trabalhos.

Eu me achava mais confortável disparando contra o teclado.

2 de Dezembro de 2008

Eu voltei, e agora é pra ficar

Dois copos sobre a mesa e esta sobre o chão, este sobre a Terra e esta sob a órbita do Sol. Do Sol os raios chegavam pela janela que iluminou o quarto e neste eu acordava com o dia ainda nublado como a noite anterior em que me vi, sem pormenores, desatento. Não que eu esteja por demais atarefado.
Não.
É desmetamorfose.
Ontem eu era uma barata.
Hoje, Gregor Sansa.

13 de Novembro de 2008

Mais velho

Fiquei mais velho hoje e vou dormir mais cedo.
Ando desenhando cidades e pessoas.
Lugares que nunca vi estão sempre à frente.
E, coitada da Aline, roubou meus verbos.

Obrigado as pessoas que lembraram.

Aline, Aquiles, Máira, Doroty, Karina, Bruno Joe, Yala, Rosa, Chicão, Daniel, João Henrique, Eduardo "Dudu", Samara, a redação do Diário do Povo, Marcelo Lambreta, Churu, os meus amigos do Sintrajufe-PI, em especial a Cacilda e o João Victor, bem como o pessoal lá de casa.

Amo todos vocês.

7 de Novembro de 2008

Eu Apenas Queria Que Você Soubesse

ISSO É TUDO O QUE EU TENHO A DIZER

Eu apenas queria que você soubesse
Que aquela alegria ainda está comigo
E que a minha ternura não ficou na estrada
Não ficou no tempo presa na poeira
Eu apenas queria que você soubesse
Que esta menina hoje é uma mulher
E que esta mulher é uma menina
Que colheu seu fruto flor do seu carinho
Eu apenas queria dizer a todo mundo que me gosta
Que hoje eu me gosto muito mais
Porque me entendo muito mais também
E que a atitude de recomeçar é todo dia toda hora
É se respeitar na sua força e fé
E se olhar bem fundo até o dedão do pé
Eu apenas queira que você soubesse
Que essa criança brinca nesta roda
E não teme o corte de novas feridas
Pois tem a saúde que aprendeu com a vida
Eu apenas queria que você soubesse
Que aquela alegria ainda está comigo
E que a minha ternura não ficou na estrada
Não ficou no tempo presa na poeira
Eu apenas queria que você soubesse
Que esta menina hoje é uma mulher
E que esta mulher é uma menina
Que colheu seu fruto flor do seu carinho
Eu apenas queria dizer a todo mundo que me gosta
Que hoje eu me gosto muito mais
Porque me entendo muito mais também

4 de Setembro de 2008

Breve prenúncio da argila branca, ou a prece do oleiro


Enquanto revolvia a terra em busca da melhor argila para o jarro encomendado, Sertão Bina foi ofendido pela cobra e lá mesmo caiu, Tinha doze anos e a pressa de quem vai morrer de fome o fazia trabalhar como se fosse viver mil anos, Rezava como os condenados ao pelotão de fuzilamento, Mordido de cobra, meu Deus! Pensou e enlutou-se com fúria, ciente, sim, de que a passagem pela vida chegava à estação final, Será meu último jarro, meu Deus. Apressou em juntar a massa, e esbofeteá-la, e untá-la, e movê-la, e cantá-la, e comê-la, No rotor entregou-se e despiu-se, e com suor e sorte esqueceu o veneno correr às artérias e sufocar a garganta, e estraçalhar o esmalte dos dentes, e ensangüentar os olhos, e turgir o mundo, salpicando de frio a pele em febre lembrou de atear fogo à fornalha, Meu Deus, suspirou pela terceira vez, num arremate atalhou as bordas do jarro, e o cuspiu na falta de água, e segundos parou em frente à peça, e proferiu uma prece como aquela que não deveria se proferir, chamou o diabo para um pacto e este não o veio, nem apareceu por sinal algum, e se arrependeu disso, então, recobrou a sanidade, Nossa Senhora me valei, pelo peso de meus pecados não me pese, que me tire desta vida sendo honrado, que não me disponha o diabo a comprar minha sorte com mais dias de vida, e que me mande pela esperança, advogada me valei nessa labuta, pensou e repensou. Acendendo a fornalha jogou-se dentro e pôs o jarro como deveria, já bastante quente o pequeno inferno, Sertão caiu sobre a porta das labaredas, e estando nos lances de agonia ainda viu o jarro assar. Acordou dois dias depois e ainda vive por aqui, fazendo-se inesperado como chuva torrencial que sacode o Velho Poty, desde aqueles idos do século trasado, momento em que se soube pela astúcia da coral haver naquele lugarejo uma argila especial e única, branca, inaugurada pelas mãos findantes do mordido de cobra que passeia pelas olarias seculares quando das agonias derradeiras dos ofendidos pelas corais nas tardes quentes e úmidas às cinco da tarde.

21 de Agosto de 2008

Dias quentes

Impressionante como tudo na minha vida começa repentinamente e se vai no mesmo rítmo. E andando eu chego longe, chego perto, nem chego. E fico apreensivo com isso. Essa história de mudar de profissão, e esses novos trabalhos estão me cansando em definitivo. Acordar bem cedo, dormir cada vez mais tarde é o reflexo imediato de tentar abarcar o mundo todo com as mãos. E, se eu tenho algum tempo pra mim eu vou sonhar...
Infintas vezes me pego desatento diante de um copo que eu não sei mais se consigo tragar. Correr foi fácil, agradeço àquelas pessoas que torceram. Eu não sabia se ia chegar, mas a "força" foi me levando além das voltas, firmando o joelho... tirando fôlego que não sei de onde veio, nem como veio. Agora vem a parte mais difícil: um medo enorme do resto dar errado, de ser demitido do jornal, de ser demitido dos dois sindicatos, de não conseguir levar esse curso de Direito que eu arrasto à penas duríssimas. E a revista Trimera eu nem comecei ainda a trabalhar na cabeça, apesar de ter o sentimento de já tê-la escrito, como quase tudo na vida.
Senhoras e senhores, cansadíssimo.

E nesses dias quentes, eu só queria dormir.

Grato.

10 de Agosto de 2008

Avós e pai.

Do meu pai herdei boa parte do molde do corpo, os ombros, os braços, talvez. Do meu avô paterno herdei as pernas e o frágil joelho direito. Psicologicamente temo ter do meu pai ansiedade e a solidão introspectiva. Do meu avô materno eu tenha o gosto pelas caminhadas longas e silenciosas. Lembro dos três como pessoas que me fizeram essa estrutura humana complexa e cheia de vontades. Coincidência, vocês três tinham o fôlego curto, pelo que eu lembro.

Dos três homens que me concederam metade da carga genética que tenho, me sinto digno de dizer que fui feliz, embora pareça ingrato.

Só temo que amanhã, num dia difícil, a prova de resistência e aptidão física que enfrentarei não me traia o sonho.

Espero que o meu joelho direito resista, vovô Bina.

Que eu consiga caminhar firme, vovô Moura.

Lembro de ti me pedindo para nunca usar uma arma, nem ingressar na polícia. Que eu administre minha solidão e minhas vontades, papai.

Que eu tenha bastânte fôlego.


Quero vocês amanhã correndo comigo, segurando minhas mãos e desatando minhas pernas. Vocês foram embora cedo demais, mas nunca me abandonaram nem me abandonarão, tenho certeza.

E se eu fraquejar e não conseguir vencer, que me mostrem serenidade e resignação para suportar o fracasso.

Torçam por mim!

4 de Agosto de 2008

Respeitável público!

Quantas vezes eu quis escrever a todos vocês... mas confesso, em apertada síntese, que foi melhor assim ter encerrado sem cerimônias minha carreira de escritor.

E que não me baste a vaidade açoitar-me a vergonha, foi melhor assim acabar com tanta coisa. Dentre elas, a vã ilusão de que tudo podia ter sido diferente: e foi.

Cavei um buraco no quintal pra enterrar esse meu jeito de querer ter mais saudade do que posso e de me fingir santo, o cretino sou eu. É, chega de saudade, saudade de coisas que já passaram e que não vou reaver. Ontem eu topei numa pedra e lembrei que é hora de começar, e que quando eu menos imagino a vida volta noutro estágio, e nem digo bem como vai andando sem pressa.

Na verdade o problema sou eu mesmo. Dedo de Midas ao contrário, tudo que eu toco perde o valor. Eu sou como as doses de pimenta, no começo são fantásticas, depois incomotam, ferem e você nota que era mais feliz sem elas. No dia que entendi isso tudo ficou mais fácil, inclusive pra mim. Ainda bem que tem gente bastante feliz por mim e depois de mim.


Sou Coca Zero. Dois goles agora e amanhã quem sabe, ou não, nunca mais.

Como diz o Aquiles: "Não engasgue não!"

Respeitável Público,

Este blog acabou!

27 de Junho de 2008

Ser jornalista no Piuaí não é grande vantagem pra ningúem. Mas eu vou sobrevivendo no movimento sindical enquanto posso. Com 500 mil estudantes de Direito nesse país a situação também não anda lá muito boa para os advogados. Nessa luta pela sobrevivência passar num concurso público virou o "eldorado dos maracajás".

E se você não é funcionário público, com as pressões de hoje, não pode casar enquanto não passar num concurso, não pode comprar carro, financiar uma casa decente, essas coisas que naturalmente você faria na iniciativa privada... mas nos últimos anos, passar num concurso virou febre e quem não passa não é ninguém... é um zero à esquerda, quase um fracassado. Não importa se você se sai bem na sua profissão... se você paga suas contas com dignidade. Passar num concurso é até motivo de término de relacionamento... cansei de ouvir isso nas reclamações dos meus amigos: "Ela disse que se eu não passar num concurso ela vai terminar...".

Pois bem...

Digo a todos que passei no meu primeiro concurso público.

Mas, cá entre nós. Mais respeito com os trabalhadores sofridos da iniciativa privada.

25 de Junho de 2008

O Iury sumiu...

Andei sumido daqui, eu sei. Muita gente visitava esse blog pra saber o que eu pensava da vida e como eu me saia dela. Depois decidi fazer desse blog meu álbum de ficção. Nessa estória toda uma coisa é certa. Muita gente gostava e eu era feliz com isso.

O tempo passou, nem sei dizer o que aconteceu comigo, eu virei meu mundo de cabeça pra baixo, me ferrei, me ergui, me perdi, me ganhei. Minha reputação não conhece água sanitária, e com o tempo, as coisas vão ficando ainda mais encardidas.

Quando eu me vi longe de mim, cercado, acuado pelas minhas sempre e eternas lástimas, eu fui atrás dos meus amigos mais antigos e me ausentei de pessoas que eu não fazia bem - no fim foi melhor pra todo mundo.

Não sei, mas acho que 2008 é minha metamorfose mais cruel e mais mágica. Acho que qualquer dia eu acordo transformado num grande inseto, como Sansa do Kafka.

Bem, vamos lá, estou protelando dizer isso...

Não sei se viram por aí a revista "Trimera - Casa de Letras".

Nela está minhas últimas esperanças antes de virar índio ou padre.

Bom saber também que não estarei mais "disponível no momento".

Um brinde à vida reservada.

6 de Junho de 2008

Boquete

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A esta altura
metade de mim
é tua cintura

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22 de Abril de 2008

Caderno de pronomes


Ele esperou a vida, um passo, um canto. E se pôs a trincar os dentes, sem perceber que o bruxismo trincava mais que a tinta do sorriso. Esperou uma mulher que não veio. E se pusesse menos de si em cada troca não teria tamanho prejuízo. Ele era pintor de verbos.

Primeiro verbo: Ele. Denotava o bárbaro que era outro. E tão louco quanto não fosse, fingia falso juízo por piedade de si. Amedrontava somente os infantis, era covarde. Substantivo mor. Se houvesse a quem dizer, uma interjeição: já!

Enquanto confundia o passado com a tela exposta, decifrava o peso da dúvida. Um próton a menos era elefante, posto nem tão leve, talvez nadaria nas confusões da “Bocuda”.

Bocuda era, certamente, um aposto: depois de mim, fiz, sujeito.



Na rua das ilusões perdidas moravava uma circunstância: predicado. Predicou toda a vida num advérbio: desisto.

Mas, mas, mas, mas, resto loucura, e noves fora, azul, seríamos nove anos mais jovens, ao atravessar, pela última vez, a ponte sobre o rio que conjugava Timon.


20 de Abril de 2008

Os dedos do marinheiro, ou o sorriso de Mysha

Já navegou por tantos mares, e já sentiu o gosto do vento e do sal, da madeira estraçalhada e das sílabas nas línguas das sereias que o afundaram para as terras abissais onde ele matou a punhal cada uma delas. Tinha fôlego o bastante para seduzi-las e submergir. O marinheiro que encantava as mulheres-peixe do mar sabia que não podia ser morto, porque já o era desde o naufrágio da primeira embarcação tripulada que o mundo viu, há mais tempo que o homem poderia contar. E de tantos mares se alimentou e tornou a morrer, porque ressurgia do fundo sempre que lhe lançavam para saciar os peixes. Viveu como lenda nas águas da Austrália, nas praias do Chile e no Japão ocidental. Tinha a resposta para a chegada do homem à América e conhecia toda sorte de explicações para o mundo praieiro, mas nada sabia da vida na terra, das habitações no chão, nem das mulheres – verdadeira paixão e busca eterna. Embora dominasse o mar, não poderia tocar os pés em nenhuma outra firmeza desde que fora expulso do mundo dois meses antes do dilúvio. De tanto tentar fixar-se nas praias ele conseguiu enormes feridas nos pés e a terra o invadia corpo a dentro, ficava petrificado e doente, mas insistia em retornar toda vez que encontrava alguém para guardar na memória.

Uma manhã, perdido há séculos, avistou uma menininha de cabelos escuros e longos, que buscava conchas na praia. Instante em que seu coração enamorou-se, e nunca mais fora o mesmo. Tentou chegar mais uma vez, quase se petrificou na tentativa. E tentou por tantos anos que esqueceu o tempo correndo nas marés que enfrentava. A doce criança se transformou em mulher e procurava sempre a mesma praia e as melhores carcaças das ostras. Enfeitava o pescoço e o cabelo com elas. Enquanto o marinheiro desvendava cada detalhe do rosto daquela mulher, sofria e se entristecia. Lembrou das índias incas, das japonesas e nativas chilenas, das africanas do Porto da Morte, e de tantas tentativas de retorno à vida.

Solitário, contemplara suas deusas de longe, dentro do barco, a poucos metros da costa. Aquele dia, dez anos esperando uma solução para ter a jovem mulher nos braços lembrou do feitiço dos fenícios que bebiam do próprio sangue para conservar o senso de localização e a saúde na terra. Desejou poder ao menos uma vez tocar a delicadeza da pele da menina que ele batizara de Mysha, a Divina.

Elaborou um plano. Sabia que o sangue conserva a beleza e sabia que se tocasse o chão por muito tempo se transformaria em pedra, então, uma tarde em que a viu na terra catando jóias do mar, cortou um pedaço do dedo anelar, colocou dentro de uma ostra, untou com sangue o marisco e arremessou para a praia. Esperou até que a moça visse chegar a ostra arremessada que, brilhando como o sol que se punha, fora tocada pelas mãos de Mysha. Quando ela abriu, ao invés do dedo cortado, uma esfera clara; brilhante e dura como pedra; com o verniz de lágrima; arrancou o mais lindo sorriso que houve no mundo.

Nunca se soube quem era o homem que se cortava com punhal e que arremessava ostras à praia, mas por onde passou e ainda passa, pode-se ver e ouvir, às cinco da tarde, gargalhadas apaixonadas nas praias paradisíacas, quando uma pérola é encontrada dentro das ostras arremessadas pelo fantasma do barqueiro do mar.

2 de Abril de 2008

Convocatória

30 de Março de 2008

A Virgem e o cárcere, ou o Santeiro do Rio Monge

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As mãos calejadas seguravam o alicate e talhadeira. A casa úmida e quente à beira do rio Monge estava pendendo para a margem esquerda da correnteza. Do outro lado das águas estavam as igrejas, e os armazéns caindo aos pedaços, não lembravam mais o tempo em que tudo era gigante, como as pessoas e as lembranças da Capital Inventada no sol de agosto. Parou um instante para levar o trabalho fora da casa, capturar mais um pouco de luz e ar. Parou frente ao Oitizeiro que o pai plantara anos distantes. Contemplou cada traço da madeira, cada curva da obra, e soube que não veria mais a Virgem da Conceição em suas mãos. Ela seria atravessada de barco, na procissão fluvial que o mês desejava. Mas, de tudo, não lembrou só da arte, lembrou de como deixou de ser gente retirante. Os filhos haviam partido para o sul quando o norte se tornou mais árido que os desertos bíblicos. A mulher estava guardada sob a terra, e não havia o que fazer senão aceitar o desfecho reservado.


Contou quantas vezes fora menino urgente, nas madrugadas de fome que roubou arroz nos armazéns, e quantas foram as penas sofridas. Lembrou de quando a adolescência exigia trabalho honesto e foi ser tripulante nas estações de trem que vinham do Maior Campo, trazendo a carnaúba e o charque que só serviam aos que não precisavam. Traçou na mente todos os mapas das casas onde morou e as ruas que se escondeu quando a polícia buscava o prêmio de sua captura. Tempos rebelados de um homem que se fez à ferro e sangue, nas manhãs de cansaço e no entardecer do cárcere, dias em que viu o sol se por nas celas da Ilhota.


Começou a trabalhar os santos de madeira quando descobriu que não havia outra forma de sustentar-se com a estiva no porto por causa de um balaço que destroçou três costelas. E dedicou seu tempo à fé em busca de cura e perdão dos pecados que toda gente tem e não admite. A primeira graça conseguida foi acertar o dedo indicador com a talhadeira, quatro anos atrás e operar o milagre de não apartá-lo da mão. O que seria um banco de engraxate se transformou num Cristo pequenino, do tamanho de uma espiga de milho. Daí não parou de acertar a talhadeira em busca de um santo, um anjo, uma Virgem.


Estava velho e quase por completo cego quando decidiu fazer a Virgem da Conceição. Não havia muito tempo, os dias corriam e a vista encurtava. Não era encomenda alguma, e não quis vendê-la. Já quase pronta colocaram preço elevado para levar a arte à Europa. Desistiu de comprar uma casa nova e tratar a saúde com a oferta de dinheiro. A Virgem da Conceição encantava todos que por ela passavam quando ele se colocava ao trabalho. Aquela tarde cerca de meio mundo parou para vê-lo terminar, com um último toque nos olhos esculpidos, a mais bela das Virgens.


Enquanto todos observavam o homem cego, ele observava o rio enquanto o sol caia às suas costas, fugindo para o oeste, e cravando a certeza de que amanheceria sem ver sequer um palmo adiante do nariz.


Assim que arrematou o olho direito da Virgem, e poliu o manto, virou-se para o povo e pediu que o levassem à Matriz para entregar a obra. Foi até o porto, entrou na barca e chegou a Igreja levando nos braços a obra. Pôs junto ao altar, na nave principal e lá esteve durante toda missa ajoelhado, implorando um perdão que já havia chegado anos atrás.


Saiu da Igreja, despediu-se do último trabalho e naquele instante lhe fora clarificada a dúvida que carregou por toda a vida – O perdão, se implorado com fé, vem como a suave brisa do rio Monge, assim que o relógio da Matriz anuncia o último badalo da décima sétima hora do dia.

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18 de Março de 2008

Capitão Capivara, ou o segredo de São Pedro



A Rua da Chapada desaguava no Rio Monge, e nele toda gente saciava sede e fome. A Rua da Chapada era larga e muitos meninos corriam nela, a toda velocidade, quando os vapores do sul despachavam os cereais. Os meninos eram todos pobres e filhos de pescadores, que trabalhavam para a Companhia de Abastecimento. As barcas do sul traziam de tudo, esmolas, inclusive. E era bastante serem todos pequenos pescadores à serviço da Companhia. Bastante também serem todos pobres e pedintes. Mas, havia um garoto que não pedia e não trabalhava para ninguém. Não sabia nadar e odiava peixe. O pai era inválido pelo álcool e a mãe costurava uniformes para os trabalhadores do Porto do outro lado do Rio, na Capital Inventada.

Aquele garoto sabia que não haveria futuro algum para dispor, quando ao alcance da mão, a miséria e a esmola se refaziam em dívidas por pagar com a vida e a morte. Um dia, quando fora impedido de pegar carona nas barcas para ir levar comida para a mãe, na fábrica de roupas da Paraíba, percebeu que por não esmolar não merecia caridade ou respeito. Naquela mesma noite sonhou que deveria partir para longe do porto, e pela primeira vez entrar nas águas. Deveria construir um barco e por própria conta e risco levar suprimentos à mãe resignada.

No sonho o método foi revelado por uma antiga moradora da Rua da Chapada, a velha escrava Niá, a quem todos incomodava com silêncio secular e a aparência de bruxa. Niá revelou em sonho que o barco deveria construído em apenas três dias, e que deveria ser colocado n’água no dia bissexto – quando da primeira navegação. Deste dia em diante, se o garoto sobrevivesse à tempestade não seria importunado, e as águas que ele tanto odiava fariam dele o maior de todos os homens, aquele que conhece o segredo de São Pedro, o Pescador. Nunca houve sonho tão real quanto aquele.

Da Companhia de Navegação roubou a madeira, e as ferramentas foram trazidas às escuras da linha ferroviária. Projetou sem conhecer, arrematou as bordas, desenhou a proa com esmero e a quilha fez por instinto, observando os barcos destroçados pelas tempestades. Assim que terminou, esperou o dia 29 de fevereiro amanhacer. Fez como rezara o sonho, deitou na água no primeiro raio de sol, e assim que o meio dia alcançasse a terra teria de conversar pessoalmente com Niá para selar o feitiço. Foi até a antiga moradora e a mesma caçoou do garoto, não era bruxa e não havia dado conselho algum, não fez contato, e não sabia do que se tratava. Se fora um sonho deixasse isso para as alucinações da noite.

Desesperado, não acreditou no que acontecia, todo um trabalho, todas as circunstâncias devidamente planejadas e a comida da mãe, sobre a proa do barco, por esperar. Não teve dúvidas, se não houvesse a proteção da magia, a fortaleza da obstinação traria algum resultado. Assim que pôs os pés na água, os apitos das grandes embarcações alertaram que a Barca Saleira quebrara o timão e estava à pique. Não havia mais como voltar, já havia dado cinco remadas, e já estava longe da terra, posto não saber nadar, teria que chegar ao outro lado, e sendo o barco de uma só quilha, mal feito e pesado, não havia como recuar, nem remar sabia. Pôs toda força nos braços, e pôs todo sentido na outra margem, e em estado de choque viu a Saleira imergir numa fração de segundo. As duas cidades cortadas pelo rio estavam em pânico, olhando sem nada fazer aqueles barcos menores sendo tragados ao fundo do rio por conta de estarem todos amarrados à grande Saleira. Mas, ao grito de um antigo marinheiro, as atenções se voltaram para aquele garoto que num barco improvisado desafiava o Monge e a fúria das cordas de comunicação dos barcos que, sendo esticadas e emaranhadas de uma margem à outra, pareciam uma grande teia que tudo afundava.

Lá estava o menino, escapando do hálito de uma tempestade, escapando das cordas à montante e à jusante, chicoteando a superfície do rio, tentando não naufragar com a velocidade alucinante das águas revoltadas do ano bissexto. Naquele minuto em que a chuva começou a cair, notou que tudo aquilo era impossível de acontecer com qualquer outra pessoa, senão a ele, que nunca havia entrado na água, nem gostava de barcos.

Multidões se formaram para ver um menino de doze anos morrer afogado ou decapitado pelas correntes de navio, pelas cordas de barco, pelas tábuas das canoas que disparavam de uma margem à outra. Ele remava tudo que podia, os braços cortavam no remo, e não havia outro jeito senão atravessar o redemoinho de madeira e metal. As pessoas gritavam palavras de ânimo e resignação, rezavam e pediam para que ele pulasse. Os mais sensatos diziam para ele buscar alguma tábua solta e descer rio abaixo, antes que fosse tragado pelo refluxo, mas não havia o que se fazer. O menino e o remo não sairiam os dois juntos dali. O garoto entendeu, na última possibilidade de sobrevivência, o recado do sonho, proferido pela velha Niá.

Lembrou das aulas de catecismo, e lembrou dos apóstolos, lembrou de cada um deles, mas não lembrava de São Pedro. Quando uma corrente decepou a quilha do barquinho em que estava, sentiu o gosto do sal na água e viu que também já estava à pique. Em desespero levantou a vista e viu a multidão e toda gente encomendar sua alma para o bom velhinho que lhe mostraria a porta do Céu.

Entendeu que não há homem sem fé e não há fé sem prova, como não há prova sem dúvida, e não há dúvida sem medo, e não há medo se homem. Não acreditava escapar com vida, sendo isso mesmo, inspirou-se, portanto lutaria. Não tendo nada a perder, jogou o maldito remo na água e se pôs a remar com as mãos e bater na água com os punhos, enquanto os pés serviam como quilha. Então, dominou o impulso da correnteza e atravessou a diferença entre a Física e o milagre, quando chegou à margem aclamado como herói das águas, oficial de banzeiro. Deram-lhe o nome de Capitão Capivara, o Destemido, quando às cinco da tarde do dia 29 de fevereiro de 1948 chegou ao outro lado do rio, quase sem vida, depois de sobreviver ao destempero da tempestade mãos da morte.

13 de Março de 2008

Ode aos patifes, ou o gaitista do Circo Cedo.

O gaitista do Circo Cedo anunciava o início dos espetáculos e fazia a sonoplastia das apresentações. Os trabalhos começavam e terminavam sob as melodias do músico que acompanhava a caravana dos artistas invadindo as cidades do interior do mundo velho. Àquela época não havia diversão farta e a magia do Cedo era sempre bem vinda. Apesar dos preços módicos, os bilhetes de acesso não geravam grandes públicos. Podiam-se ouvir os tambores e a gaita anunciando os saltos da trapezista; as piadas dos palhaços, e até o espanto da mulher barbada ecoava fora da lona e contaminava de curiosidade dos espectadores amontoados à rua esmolando uma graça.


O gaitista tocava fora da lona, sobre os alto-falantes, em cima da bilheteria do circo. Do lado de fora podia ver as filas que se formavam para contemplar os espetáculos. Às vezes se detinha com as pernas de alguma moça e apressava ou travava o ritmo das palhaçadas, improvisava retomadas alucinantes, era fôlego e música. Quase sempre bebia demais e acordava tarde, encrencado nas barras de saia que a vida nômade trazia. Desde os seis anos de idade, quando fora adotado pelo Circo Cedo, perdera as contas das cidades que conhecera, dos festejos que animara e as vezes que fora preso e libertado nas farras do malando órfão e perdido.


Naquela semana que chegara à São Lourenço da Mata, não tivera tempo de se encrencar. Era a última sessão da sexta-feira, quando a lona encerrou o espetáculo e do Circo viu sair uma moça branca e singela. A imagem da moça o fez perder o fôlego, tremer os dedos, suar a testa, deixar cair a gaita, coçar a sola dos pés, esfriar o estômago, o fez despencar do alto-falante e quebrar a mesa da bilheteria com a queda. Ela o acudiu, ele desacordado resmungou que não fora nada sério. O gaitista roubou do Palhaço Velho uma maçã-do-amor e entregou à criatura. Ela não aceitou e ele se pôs a acompanhá-la até em casa. Argumentou que queria conhecê-la, ir à missa no sábado à tarde, antes da primeira sessão do Cedo. Tentou barrar a entrada da donzela à porta de casa, roubou as rosas da vizinha e tentou dá-las de presente, jurou de pés juntos que morreria se não pudesse contemplar mais quinze minutos a beleza da moça. Não houve jeito de convencê-la.


Assim que o dia amanheceu ele estava à porta de casa, e descobriu da pior forma que era a filha do prefeito a jovem que o fez passar em claro a noite e decidir, de uma vez por todas, nunca mais beber e formar uma família. Os soldados de polícia notaram o comportamento suspeito e o prenderam. Guardado na delegacia os palhaços pagaram a fiança com bilhetes de circo e o levaram à sessão para o trabalho. Naquela tarde ele não tinha inspiração, não havia fôlego, nem ânimo para ganhar dinheiro ou beber cervejas noite à dentro. Espantou-se quando viu seu amor junto à lona, e antes dela entrar na bilheteria jogou as entradas que tinha nos bolsos para que ela não gastasse com o Circo. Ela agradeceu com um olá sem vida e triste, o que o fez derramar a primeira lágrima desde quando um golpe de leão quase o cegou o olho esquerdo aos seis anos de vida.


Enquanto a sessão transcorria ele chorava com ela, observava a moça lacrimejar, e junto sofria. Antes da apresentação da trapezista ele desceu dos alto-falantes e foi até a platéia, a pegou pela mão e correu para fora. A moça o acompanhou em silêncio, os dois subiram ao lugar reservado ao gaitista e juntos ficaram até o espetáculo findar. O Gaitista não dizia nada, posto a boca a trabalho; ela chorava baixinho, mas explicou com três frases que o pai o obrigara a se casar com quem não queria e já amava outra pessoa, o carteiro da cidade. Ele suspirou um plano de fuga para uma cidade à beira do rio Poty, estado distante dali, e jurou avisar ao rapaz amado pela moça toda trama. Ela concordou e o circense forjou tudo necessário para o sucesso dos três.


Enfim, antes da hora combinada para a fuga, pouco antes do primeiro espetáculo de sábado, o dia marcado para a viagem, o Gaitista ouviu um disparo de rifle que calou a cidade. O prefeito descobriu o plano pela trágica interceptação de uma carta de despedida escrita pelo carteiro e endereçada aos amigos da Agência Central do Recife. O carteiro suicidara-se com a arma do soldado de polícia que o prendeu. Desesperada, a jovem correu ao circo para alertar o risco que corria o gaitista. Ela o alcançou subindo os alto-falantes e antes que pudesse intervir, o moço da gaita foi fuzilado sobre o equipamento de som, quando tocara a quinta nota da "Ode aos Patifes".


A gaita choveu do alto da lona e nela estava inscrito, sob o sangue quente, um velho recado aos amantes da gaita – amaldiçoando com a pena capital aquele que toca melodia dos malandros de circo, quando às cinco da tarde não há espetáculo por tragédia de amores contrariados.

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30 de Janeiro de 2008

A praia do menino de vidro

Somente ele ouvia do “relâmpago-carteiro” o prenúncio da chuva. Disparou pela areia da praia, atravessou os canais d’agua represados pelas pedras, cavou dezenas de buracos e enfiou as astes metálicas de sete metros de cumprimento no chão em poucos minutos. Uma estrela metálica de cinco pontas servia como molde e base para fixação no buraco que levava quatro punhados de sílica granulada. Envoltas em fios de cobre, pacientemente entrelaçadas nas pontas das estrelas, o conjunto de varas plantadas na praia era o método mais eficiente para captar o impossível.

O garoto sabia que tinha pouco tempo hábil para cravar as varas na posição correta e articulava com um binóculo a inclinação correta para as pontas expostas mirarem à nuvem mais escura que pudesse avançar sobre a costa.

Era fria a tarde, um crepúsculo rasante cumprimentava as ondas e benzia as costas do menino que espreitava o céu cinzento. Os últimos fachos do sol refletiam nas varas, e o vento por vezes desequilibrava algumas delas, fato que desesperava o pequeno Petrus. Ele fincava-a novamente com toda a força e punha a sílica de volta ao buraco, reorganiza tudo com o dobro de acuidade.

Corria de volta à casa, e trancado no quarto esperava a chuva cair. Da praia até o quarto via apenas as varas acenando para o céu, como os bambus acenam para o vento. Veio a tempestade. Não conseguia tirar os olhos das varas. O jantar posto esfriava e a mãe já sem paciência rendia-se aos reclames do fastio de Petrus.

Uma estrondosa descarga caiu da noite recém-chegada. Mas não caíra no local planejado. Vieram outros tantos, nenhum deles atingira o ensejo. E tantas noites vieram quantas a calmaria do oceano bastasse à impaciência do menino que todos os dias refazia o percurso e o perigo – muitas vezes a chuva já começara e ele com a coragem dos naufragados não desobistinava. Uma tarde o raio o encontrou. Mal teve tempo de correr quando sentiu o prestígio da eletricidade. Caiu lá mesmo, e o choque quase o matou – acordou minutos depois molhado e tremendo de febre. Munido de ardente paciência ele invadiu os pés das varetas e lá encontrou o troféu da astúcia: uma estrela de vidro, plana, de cor azul-marinho.

No instante em que segurou a estrela nas mãos, debaixo da noite chuvosa, ele ofereceu à memória do pai marinheiro aquele feito – no dia em que os meninos fabricam estrelas, a paciência, a praia, a chuva e a coragem transferem a Física para o laborar da saudade.

As estrelas de vidro ganharam irmãs, e até o acidente que levou o pequeno Petrus para o Céu, já havia no quarto do garoto uma pequena coleção que os pesquisadores do Vaticano deram o nome de “Constelação da Saudade” quando da beatificação do pequeno que operou milagres a toda as crianças atingidas por raios nas chuvas vespertinas.

Somente as crianças da aldeia podem vê-lo correr sobre a areia, quando o estampido do “relâmpago-carteiro” avisa a chuva armada, às cinco horas da tarde na
da Praia do Menino de Vidro.